Nossa Máscara de Cada Dia

Máscara de cada dia

Novo ano, novos projetos, novas determinações… assim iniciou-se 2015. Você já definiu suas metas e objetivos para esse ano? Não?! Então pare o que estiver fazendo e vá defini-los! Se sim (meus parabéns!), entre eles está o de incorporar uma “máscara” em sua vida diária?

Recentemente eu estava conversando com uma nova amiga e chegamos a um ponto em que discutíamos que, em nossa vida, quase todos os dias nos deparamos com situações em que nos vemos forçados a usar máscaras, e que isso poderia trazer consequências negativas, sendo a maior delas a negação de nossa individualidade. Por máscaras, entendíamos ações, palavras, comportamentos que diferiam daqueles que estamos acostumados. Entretanto eu, apesar de concordar que uma sucessão de máscaras indesejáveis pode ter seu impacto negativo sobre a personalidade das pessoas, sempre tive uma diretriz mental de que toda e qualquer situação/realidade pode e deve ser analisada e compreendida por ambos os aspectos: negativos e positivos. E dessa vez não foi diferente.

Com base nisso, passados alguns dias dessa conversa, eu me peguei remoendo esses pensamentos, buscando analisar o lado positivo do tema e, como que por acaso, eu fui ler algumas publicações antigas do nosso Movimento, e me deparei com um texto cujo título homenageio nessa postagem.

A leitura desse texto me proporcionou alguns insights bem interessantes sobre o tema, os quais exporei posteriormente. Mas antes, gostaria de partilhar um excerto (o texto integral está transcrito e disponível aqui) desse excelente texto com vocês. Ele foi escrito pelo professor Morton T. Kelsey, e publicado na edição de primavera (Março/Abril) de 1981, na Revista Mundo Unificado, volume 2. Espero que apreciem a leitura tanto quanto eu.

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Há muitos, muitos anos atrás, existiu uma bela princesa que viveu no fabuloso império chinês. Era a única filha do imperador e a sua formosura resplandecia tanto quanto sua aguda inteligência. A donzela era assim, o centro das maiores atenções dos nobres da corte. Mas chegou o dia, também para ela, em que deveria se casar. Depois de consultar-se com o pai, decidiu que não apenas escolheria entre aqueles seus admiradores, ou os que havia ainda de conhecer – ela aspirava sim, ao mais educado, o mais gentil e interessante homem de todo o império. Pensava ela que a aparência de alguém reflete aquilo o que verdadeiramente ele é – que a profundidade do caráter interno do ser é manifestado no rosto do indivíduo.

Assim, partiram os mensageiros para todos os cantos do solo imperial anunciando que os mais belos jovens deveriam se apresentar naquele dia marcado e, uma vez escolhidos, iriam ter a presença da linda princesa no próprio palácio.

Numa província não muito distante, vivia um bandido; tinha tudo, menos boa aparência. Realmente, podia-se dizer de sua expressão: cruel e áspera; era ladrão e assassino perigoso. Isso, no entanto, em nada o impediu de arquitetar um bom plano. Foi até um fazedor de máscaras recomendando que lhe fizesse uma máscara que expressasse toda a bondade e delicadeza que o “artesão” pudesse imaginar e executar; e o ladrão pagou-lhe bem, com o dinheiro de seus crimes. As máscaras estavam em voga naqueles tempos, tanto que era a maior das artes. O ladrão porém, estava espantado: ficara tão deslumbrado com aquela máscara pronta, a ponto de pô-la e se mirar num espelho, quase perder a respiração. Ao invés do semblante cruel e violento de um assassino, o que ele via diante de si era um ser refinado e gentil, de poder e dignidade, de força e honestidade e de bondade e amor extremos; mal podia crer em seus olhos. Indubitavelmente, iria passar nos primeiros testes junto com os nobres vindos de todas as cercanias e das longínquas províncias do norte, e logo mais estaria ele, um ladrão, dentro do suntuoso palácio entre outros admiradores, e porque não dizer, maravilhados “pretendentes”. Mas lá estaria também representada, toda a realeza da corte; foi quando então, atraída por sua beleza, a princesa o fitou longamente. Não que ela era facilmente suscetível, mas quando comparou nosso mascarado ladrão com todos os outros que se apresentaram, não lhe restava dúvida de que ele era o mais belo.

Chega o dia, enfim, da escolha, e a quem a princesa aponta? Naturalmente o mascarado tinha sido o escolhido. A princesa, em sã consciência de que não poderia ordenas simplesmente a alguém para que fosse seu marido, quando todos os convidados se retiraram, providenciou que aquele homem viesse à sua presença, e ali conversaram. Então ela lhe perguntou, “Você se casaria comigo?”. Nosso herói deparou-se subitamente com alternativas horríveis. Se dissesse “não”, seria descoberto na certa e muito provavelmente decapitado; se se casasse com ela, seria também descoberto e entregue à justiça. Lamentou então, o dia em que teve a infeliz ideia de se lançar em tamanha aventura. Estava confuso e acovardado, mas finalmente armou um plano que ao menos lhe desse tempo para reconsiderar. Confessou à princesa que jamais sonhara em ser o escolhido e que, assim, seria melhor pensar muito, e depois de um ano voltaria com a resposta. Embevescida com a lucidez de homem “tão nobre”, partiu sem saber para onde, o enleado farsante.

"E agora José?" (Fonte: Wikimedia)

“E agora José?” (Fonte: Wikimedia)

Você pode imaginar a situação na qual ele se meteu? Sua vida tinha dado uma guinada completa e já não poderia simplesmente desaparecer. Passou a ser conhecido como o mais benévolo dos homens em todos os lugares, e de forma a não se trair, deveria agir exatamente como aparentava ser, isto é, amabilíssimo. Deveria de se policiar enquanto falava, agir com graça, elegância e coragem; aprendeu a generosidade e a simpatia, pois essas eram as características que sua face refletia. Começou a se mostrar compreensivo e agradecido a ponto de consolar os tristes e confortar os infelizes, mas lhe vinha sempre à lembrança seu rosto bem diferente ao da máscara que usava. Jamais, nem mesmo por um instante, poderia esquecer aquilo que realmente ele era. A tensão e agonia desta pobre criatura se intensificava cada vez mais. Como uma fraude mascarada, quão cuidadoso ele tinha de ser, e o quanto de esforço e energia deveria despender diariamente! Seu coração ardia de remorso. Quando as pessoas apreciavam seus feitos ou falavam bem dele, estremecia-se todo, porque sabia quem era de fato, ficando horrorizado ao ver como essas mesmas pessoas podiam ser enganadas por suas ações.

Horror maior foi quando, depois de um ano, deveria voltar à presença da princesa. No dia do encontro entre ambos, depois de passar por torturas internas mais amargas, ele finalmente decide contar toda a verdade e arcar com todas as consequências que surgissem. Quando se aproximaram um do outro, ele prostrou-se ao chão, reverenciou a princesa, chorou de forma indefesa, dizendo palavras em meio a soluços e o grande pranto que lhe embotava o coração. Mas disse, “Nada mais sou que um ladrão, um miserável, fiz essa máscara para que tivesse a chance de ver o interior do palácio real e encontrar-me com a princesa, que é a mais bela de todas as mulheres do reino. Hoje me vejo terrivelmente arrependido e amargurado, pois atrasei todo vosso plano mais de um ano”.

De início, a princesa ficou extremamente irritada, mas então decidiu que deveria encarar tal fato como experiência, não deixando, entretanto, de ficar intrigada com aquela máscara, e querendo saber como era o homem que há tanto a usou. Disse ela, assim, ao súplice farsante, “Sim, fui enganada, mas faça-me um favor e depois o deixarei partir: retire sua máscara e faça-me ver como realmente você é, e retire-se daqui logo a seguir”. Amedrontado e tremendo muito, o ladrão removeu sua máscara. Foi então que a princesa explodiu de raiva: “Por que me enganou? Por que carrega uma máscara exatamente igual ao seu rosto?”. Absolutamente consternado, o mascarado perdeu de vez a fala, e na sua frente colocado pela princesa, ele vira que seu rosto tinha se tornado o mesmo da máscara, no espelho.

Durante um ano inteiro ele sofreu e lutou muito para sobreviver com a máscara que usava e, finalmente, tornou-se aquilo que tentava ser.

Essa estória nos leva a concluir como em todo conto de fada: eles se casaram e o ex-ladrão, rude e cruel, veio a ser o maior dos imperadores de que a China já teve notícia.

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Bacana né? É interessante se pararmos para pensar. Um indivíduo que, a princípio, carecia de boas características e qualidades, incorporou, através da máscara, uma espécie de ideal humano (boa fala, elegância, cheio de simpatia, cuidado pelos outro e praticante da caridade, enfim, “amabilíssimo”) e que, afinal, se tornou sua máscara.

Mas, como isso se relaciona com nossa conversa inicial?

Normalmente consideramos que “usar uma máscara” na vida real é algo negativo, e possivelmente criticamos quem o faz, pois essa pessoa estaria “negando seu verdadeiro ‘eu’”. Mas, particularmente, após ler esse texto , notei que “usar a máscara” pode ter sua vertente positiva, sendo isso definido pelo propósito para o qual você a usa.

Isso porque a “máscara” pode representar aquilo que você anseia se tornar, um objetivo a ser atingido. E a ideia é de que, usando a máscara do seu objetivo, você passe a viver conforme ele, tal como o ladrão que, para não se trair por estar usando a máscara de um homem de valor, moldou seu caráter de modo a ser esse indivíduo – ainda que de forma inconsciente.

E como definir que “máscara” usar?

Se o seu objetivo, por exemplo, é o de cultivar os valores de um lutador vencedor, incorpore essa "máscara" e passe a viver conforme os valores de um vencedor. (Fonte: Wikimedia)

Se o seu objetivo, por exemplo, é o de cultivar os valores de um lutador vencedor, incorpore essa “máscara” e passe a viver conforme os valores de um vencedor. (Fonte: Wikimedia)

Os Verdadeiros Pais inúmeras vezes ressaltaram a importância de que as pessoas – sobretudo os jovens – desenvolvessem uma meta, um propósito claro para suas vidas. E qual deveria ser o propósito central dessa meta? Não seria o de viver uma vida em benefício de Deus, da humanidade e do mundo? É um objetivo bem amplo, não é?

E é justamente devido a isso que temos a liberdade para escolher a nossa maneira de realizar esse propósito central, e essa maneira nada mais é do que a expressão máxima da nossa individualidade. Ou seja, devido ao nosso objetivo central ser muito amplo, Deus nos permitiu que pudéssemos escolher a forma mais adequada, para nós, de realizá-lo.

Ora, dar alegria às pessoas e fazê-las sorrir e pensar através da dança, da música e expressões artísticas não é uma forma de alegrar a Deus e servir o mundo e a humanidade? Elaborar discursos inspiradores que acendam a chama das pessoas para atingir seus objetivos e superar seus limites não é uma forma de servir ao mundo? Criar e administrar hardwares e softwares que facilitem e melhorem a vida das pessoas ao redor do mundo não é uma forma de servir a Deus, a humanidade e o mundo? Escrever livros, textos que explorem não só o mundo natural (textos científicos e ciências da saúde e da natureza), mas toda a complexidade da mente humana (ciências humanas) e sua capacidade criativa (literatura, ciências exatas), através dos quais as pessoas exprimam suas emoções e ampliem seus horizontes, não é uma forma de alegrar a Deus servindo a humanidade e o mundo? Bem, minha resposta é ‘sim’ para essas e outras infinitas situações.

Entretanto, apesar de tudo, temos que admitir a realidade: não somos tão bons quanto gostaríamos de ser naquilo que gostamos. Mas isso nem de longe é algo ruim. Muito pelo contrário, é esse sentimento de incompletude que nos motiva a estarmos em constante aperfeiçoamento e termos melhores condições de expressar nossa individualidade e desenvolver nossas capacidades.

E é justamente essa a “máscara” que, penso, devemos incorporar: nós mesmos, só que melhores; as pessoas que queremos ser. Porque, tendo em mente esse nosso ideal, nós passaremos, gradativamente, a nos moldar conforme nossas máscaras. Não será um processo fácil – como não foi para o ladrão da estória – mas valerá a pena.

Finalmente, usar uma “máscara” na vida real, penso eu, não é algo ruim ou que negue minha individualidade, de forma alguma. Muito pelo contrário, eu incorporo minha “máscara” justamente porque ela é a expressão máxima do que eu quero ser, da individualidade que me foi concedida por Deus, a qual eu preciso e, sobretudo, quero atingir.

Eu já defini a(s) minha(s) máscara(s) pra esse ano. E você, que tal vestir uma(s) também?

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